Cartilha sobre Ataxias
O que quer dizer Ataxias e Degeneração Espinocerebelar e Cerebelar?
As ataxias em geral ocorrem quando partes do sistema nervoso que controlam os movimentos são danificadas. As pessoas com ataxia começam a perder o controle muscular dos braços e pernas, o que resulta em desequilíbrio ou perturbação da marcha, do andar. Embora o termo ataxia seja principalmente usado para descrever esses sintomas, também se refere a uma família de desordens. Não é, contudo, um diagnostico especifico.
A maioria das doenças que provocam ataxia (falta de coordenação dos movimentos) faz com que as células da parte do cérebro chamada cerebelo se degenerem ou atrofiem. Algumas vezes a coluna espinhal também é afetada. As palavras degeneração cerebelar e espinocerebelar são usadas para descrever mudanças ocorridas no sistema nervoso central. A degeneração cerebelar e espinocerebelar tem muitas causas diferentes. A idade da manifestação da ataxia varia de acordo com a causa dessa degeneração.
Muitas ataxias são hereditárias e classificadas pela localização do cromossomo e do padrão de herança genética. As ataxias autossômicas dominantes são aquelas em que a pessoa afetada herda um gene normal de um dos pais e um gene defeituoso do outro, como a Doença de Machado-Joseph, chamada também de Ataxia Espinocerebelar 3 ou SCA 3 (Arnaldo Duran e Guilherme Karam), e todas as demais ataxias da família SCA (iniciais em inglês de Spino Cerebellar Ataxias). As autossômicas recessivas são aquelas em que ambos os pais passam uma copia do gene defeituoso. Este e' o caso da Ataxia de Friedreich (Natache Iamaya), a mais comum das ataxias no mundo. A de Machado-Joseph é predominante em países de colonização portuguesa. Ataxias esporádicas também podem ocorrer em famílias sem história prévia desse tipo de doença.
A ataxia também pode ser adquirida. As condições que provocam ataxia incluem derrame cerebral, esclerose múltipla, tumores, alcoolismo, neuropatia periférica, desordens do metabolismo e deficiências de vitaminas.
O que é Ataxia de Friedreich?
A Ataxia de Friedreich é uma doença rara, hereditária, neurodegenerativa, debilitante, irreversível, também associada a cardiomiopatias, diabetes, disartria, surdez, cegueira e escoliose. A medula e os nervos periféricos degeneram e se tornam mais finos. O cerebelo, parte do cérebro que coordena o equilíbrio e os movimentos, também degenera, mas em menor extensão. Essa degeneração provoca desequilíbrio e perda da percepção sensorial. A doença não afeta nem as funções cognitivas nem as mentais.
A Ataxia de Friedreich é causada por um defeito (mutação) no gene denominado FXN (9). A doença é recessiva, o que quer dizer que ocorre somente nas pessoas que herdam a cópia defeituosa do gene de dos dois pais. Apesar de rara, a Ataxia de Friedreich é a forma mais comum de ataxia hereditária recessiva, afetando, em média uma em cada 50.000 mil pessoas(National Institute of Neurological Disorders and Stroke, divisão dos National Institutes of Health dos Estados Unidos).
Quais os sintomas?
Os sintomas comuns que acometem essas doenças são basicamente: andar cambaleante, falta de coordenação motora nos membros superiores e inferiores, fadiga (falta de energia e perda muscular), fala disártrica (enrolada), problemas na visão, na audição e na deglutição, cardiomiopatia (crescimento do coração e/ou arritmia), diabetes melittus(dependente de insulina) e escoliose deformante(curvatura da espinha dorsal). Podem iniciar-se e se manifestar de várias formas: tonturas ou perda de equilíbrio, fala enrolada, marcha cambaleante, dor nos músculos e articulações, nas pernas, joelhos, coluna, cãimbras, dificuldade na visão, diplopia, distonia (contração muscular involuntária), engasgos, entre outros sintomas. Eles progressivamente incapacitam o doente, tornando-o cada vez mais dependente de terceiros e levando-o, muitas vezes, a uma cadeira de rodas.(Site da Abahe-Associação Brasileira de Ataxias Hereditárias e Adquiridas, artigo “O que é Ataxia”).
Quantos pacientes existem no mundo e no Brasil?
Não existe nenhuma estatística oficial sobre o número de pacientes. O que mais se aproxima disso é o cadastro criado pela FARA (Friedreich’s Research Alliance), entidade filantrópica que financia as pesquisas, com registros de portadores de todo mundo. Os Estados Unidos têm a maior população de “fredericos” do mundo, com 1507 pessoas registradas, seguido da Franca, com 1.300, e do Brasil, com 305. Existe também o registro de membros da Associação Brasileira de Ataxias Hereditárias e Adquiridas- Abahe, com 265 portadores cadastrados. Como se ve, há 40 brasileiros registrados na entidade internacional mas que nao se interessam em se cadastrar na Abahe, apesar de nossos apelos. (Fonte:www.curefa.org/registry ). A estimativa de pesquisadores e especialistas é a de que existam 15.000 portadores de Ataxia de Friedreich em todo o mundo.
Medicamentos para Ataxia de Friedreich?
Embora as doenças neurodegenerativas, de modo geral, não tenham tratamento, a recente descoberta da proteína frataxina e de seu papel na regulação e oxidação de ferro nas células abriu as portas a tratamentos que podem alterar o processo degenerativo. Há dois medicamentos para Ataxia de Friedreich em fase final de pesquisa nos Estados Unidos. Um deles é o interferon gamma, que há mais de quinze anos é comercializado para o tratamento de osteopetrose maligna e granulomatose crônica. Esse medicamento vem sendo usado no tratamento off-label de Ataxia de Friedreich em vários países, como Noruega, Espanha, Itália e Estados Unidos. Não há cura mas os casos de tratamento off-label relatados mostram sucesso na contenção do avanço da doença e melhora na qualidade de vida dos pacientes. O governo noruegues paga 90% dos custos do tratamento com interferon gamma(Imukin/Actimunne) a todos os portadores que o desejarem.
Expectativa de vida ou sobrevida?
A expectativa de vida média situa-se entre 50-60 anos, mas a severidade e a progressão da doença variam. Alguns pacientes vivem até os setenta anos.
O que ainda falta em relação aos avanços da doença?
Falta agilidade na estrutura do Ministério da Saúde para acompanhar e absorver os avanços das pesquisas sobre esta e outras doenças raras. Embora o Brasil tenha a terceira maior população de “fredericos” do mundo, os laboratórios farmacêuticos não se sentem encorajados a realizar ensaios clínicos no Brasil por causa da burocracia e lentidão na aprovação de ensaios clínicos multicêntricos internacionais, em que o mesmo medicamento é testado em diferentes países. Cada pedido de pesquisa precisa passar por, no mínimo, duas diferentes instituições governamentais, sem nenhuma chance de “tramitação rápida” em situações de reconhecida segurança e eficácia, a exemplo do que é feito pela Food and Drugs Administration dos EUA, inclusive em relação a Ataxia de Friedreich.
Referencias médicas para a Ataxia de Friedreich
O dr. Marcondes França Júnior, professor da Unicamp e neurogeneticista do Hospital das Clínicas daquela universidade, é o médico brasileiro mais próximo das instituições americanas de apoio à pesquisa em Ataxia de Friedreich. Ele seria o candidato natural a coordenar no Brasil os projetos de pesquisa colaborativos internacionais sobre AF.
Por que e’ importante ter um cadastro de portadores de ataxia de Friedreich e de outras ataxias?
"Criar um registro de pacientes é a ação mais valiosa que uma comunidade de doença rara deve adotar. O registro oferece informações importantíssimas sobre a doença e facilita o seu estudo, aumentando a probabilidade de desenvolvimento de novos tratamentos", disse David Meeker, presidente da biofarmacêutica Genzyme.
As informações sobre doenças raras são, em geral, limitadas, incompletas e de difícil acesso. O registro de pacientes é uma ferramenta efetiva para obter informações uteis aos pesquisadores que estudam doenças raras. Os Rare-disease Patient Advocacy Groups (PAGs)- em português, Grupos de Defesa dos Interesses de Pacientes com Doenças Raras- com frequência dão apoio aos esforços de pesquisa das doenças de seu interesse. No entanto, estabelecer e manter um registro de pacientes exige disponibilidade de tempo e de recursos . (Versão original no link http://www.sanfordresearch.org /cords/advocacy).
Deu no The Wall Street Journal:
"Testes Clínicos Precisam de Mais Participantes. Os Pacientes não tem Consciência disso ou Relutam em Participar, Atrasando o Desenvolvimento de Novos Medicamentos". Esta e' também a luta da Abahe - Ass. Brasileira de Ataxias Hereditárias e Adquiridas: ter um cadastro de portadores de ataxias pronto para solicitação de pesquisa de medicamentos.
(...) “Os desafios de identificar, recrutar e manter os voluntários dos testes clínicos aumentam os custos diretos e indiretos do desenvolvimento de medicamentos e atrasam significativamente a introdução de novas intervencoes medicas ,” afirma Ken Getz, professor do Centro para o Estudo do Desenvolvimento de Medicamentos da Faculdade de Medicina da Tufts University, nos Estados Unidos, e presidente do conselho da organização sem fins lucrativos Centro para Informação e Estudo sobre Participação em Pesquisas Clinicas.
Qual o beneficio imediato desse cadastro?
O maior estimulo para esse cadastramento é o fato de que há pelo dois medicamentos na Fase III de ensaios clínicos para o tratamento da Ataxia de Friedreich: o interferon gamma, na etapa final, patrocinado pelo laboratório Horizon-Pharma, e o EPI-743, no inicio da Fase III pelo Reata (http://www.curefa.org/pipelin e). A expectativa dos analistas financeiros do setor farmacêutico é de que o interferon gamma entre no mercado ainda em 2017.
A Rede Sarah é responsável por 50% dos diagnósticos de Ataxia de Friedreich no Brasil, ficando o resto distribuído em instituições como Hospitais das Clínicas de São Paulo, Campinas e Porto Alegre e Instituto Genoma de São Paulo. Embora todas as instituições sejam mantidas por fundos públicos federais e estaduais, elas não se comunicam. Por causa disso, o Brasil não tem um cadastro único de portadores de Ataxia de Friedreich e de outras ataxias, embora as informações já estejam catalogadas. Propusemos à Rede Sarah, em junho de 2015, montar esse cadastro mas ainda nao tivemos nenhuma resposta.
(Texto elaborado com base em subsídios diversos, inclusive do
National Institute of Neurological Disorders and Stroke, one of the National Institutes of Health in the U.S http://www.ninds.nih.gov/disor ders/ataxia/ataxia.htm )